O último ano se passou e somente agora me dei conta de que, pela primeira vez desde a criação do site, passei mais de doze meses sem escrever os textos de que tanto gosto para os estimados leitores deste blog. É que a vida moderna tem os seus meandros, e muitas vezes nos vemos enredados numa espiral de agitação tão grande, que acabamos perdendo o contato com nossa essência e com aquilo que nos faz felizes.
Tico-tico sobre o telhado da Igreja de São Francisco de Assis (Mini Mundo - Gramado | RS)
2 MIN, DE LEITURA
No final de novembro viajei com a família para conhecer o famoso Natal Luz em Gramado, cidade da Serra Gaúcha localizada a 115 km de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul. Já havia estado lá em lua-de-mel e no festival de cinema, mas não poderia imaginar que a cidade ficasse tão bonita com as ruas enfeitadas e com um clima de alegria contagiante por toda a parte.
O bioma local é a Mata Atlântica, com alguma presença de Mata de Araucária, por isso pude identificar um bom número de espécies que já conhecia da região sudeste, como sabiás, canários-da-terra, pardais e tico-ticos.
Ao menos na primavera, o Tico-tico (Zonitrichia capensis) parece ser o pássaro que mais se faz notar no centro de Gramado, cantando ao longo de todo o dia em praticamente todas as partes da região central. Ali seu canto se torna ainda mais melodioso pela diminuta poluição sonora nas ruas da cidade, onde não se vêem ônibus e os veículos costumam aguardar a travessia dos pedestres sem buzinar.
Foi no Mini Mundo que consegui o melhor registro da espécie que ilustra o post de hoje. Por essas coincidências da vida, o pássaro ficou bastante tempo pousado no telhado em miniatura da Igreja de São Francisco de Assis, justamente ele, considerado o santo protetor dos animais e o padroeiro da ecologia.
BOAS FESTAS!
Agradecemos sua visita e sua participação ao longo desse ano. Retornaremos com as matérias no ano que vem, desejando a todos um Feliz Natal e um próspero Ano Novo!
(Provável) fêmea de Tico-tico (Zonotrichia capensis) banhando-se em poça d'água
Mesmo após o narcisismo humano ter sofrido três severos golpes ao longo da história, como expôs magistralmente Sigmund Freud em seu famoso artigo Uma dificuldade no caminho da Psicanálise (1917), ainda assim boa parte de nossa cultura insiste em tratar o homem como um ser superior às demais formas de vida.
Um efeito bastante óbvio e deletério desse tipo de percepção são as alterações climáticas que provocamos com nosso atuar no mundo baseado no antropocentrismo, colocando em risco o futuro da humanidade e do próprio planeta.
Ironicamente, apesar de toda nossa prepotência, muitas vezes basta o tempo virar bruscamente para nos colocar de cama, impossibilitado-nos de realizar as tarefas mais básicas do cotidiano.
Alheio a essas fragilidades humanas, e apesar de reunidas todas as condições que submeteriam muitos de nós a um forte resfriado, um Tico-tico (Zonotrichia capensis) pode ser visto tomando banho numa pequena poça d'água, em um dia frio e chuvoso na cidade do Rio de Janeiro, véspera das eleições municipais.
A foto que ilustra o post de hoje registra esse momento e retrata (provavelmente) a fêmea do tico, banhando-se. Falo em probabilidade porque, apesar da ausência de dimorfismo sexual (características físicas que distinguem o macho da fêmea), enquanto a fêmea banhava-se foi possível ouvir o macho, seu provável parceiro, cantando bem próximo a ela.
De acordo com Helmut Sick, autor da consagrada obra Ornitologia Brasileira, o tico vive em casais, defendendo o macho seu território, num diâmetro de 30 metros, contra a aproximação de outros machos da espécie, de modo que se havia ali um macho cantando enquanto o outro tico se banhava, há grande chance de se tratar mesmo de uma fêmea.
O tico também nos dá um "banho" quando o assunto é altitude. Ele gosta de regiões de climas temperados e, nos Andes, segundo Sick, pode ser encontrado à altitude de 5.000 metros!
Não é a primeira vez que tiro conclusões pessoais ao observar o comportamento dos ticos na natureza, e confesso que é muito prazeroso para mim fazê-lo (para quem ainda não leu o postLições de um casal de Tico-tico, pode acessá-lo aqui).
Para finalizar, e para não ficar apenas no registro fotográfico desse momento especial, segue o vídeo que fiz do banho do tico, seguido da secagem das penas após a lavagem (como já dito, é possível ouvir nitidamente, ao fundo, o macho cantando).
Pílula Ecológica
O Greenpeace criou uma campanha pela criação de um Santuário das Baleias no Atlântico Sul. A criação desse santuário é uma antiga reivindicação diplomática e científica do Brasil, mas vem sofrendo resistência do Japão e da Noruega, conforme divulgado recentemente em O Globo, por Mariana Alvim. Para conhecer a importância dessa medida e participar da campanha do Greenpeace, clique aqui.
Somente uma sociedade engajada pode realizar as mudanças de que tanto precisamos para viver em um planeta harmônico e sustentável. Portanto, conheça essa iniciativa e, acima de tudo, participe!
Oi amigos, tudo bem? Hoje gostaria de dividir com vocês um pouco da sensação que experimentei ao contemplar um casal de Tico-tico (Zonotrichia capensis), no Jardim Botânico do Rio, por ocasião do feriado de Tiradentes.
A referência ao mártir da Inconfidência Mineira, aliás, é bastante pertinente, porque sua luta significou para nós, humanos, a busca da tão sonhada liberdade, e não concebo nada que se aproxime mais simbolicamente desse conceito do que poder observar aves silvestres em seu habitat natural.
Uma das poucas vantagens de ser apaixonado por aves, mas não ter formação em ornitologia, é poder observá-las da forma mais descompromissada possível, chegando a conclusões pessoais - ainda que equivocadas - acerca do comportamento desses maravilhosos seres alados.
Falo, aqui, dos prazeres da contemplação, da imaginação e da descoberta. De poder fazer anotações durante as "passarinhadas", para depois, finalmente, confrontar com aquilo que dizem os especialistas. E foi exatamente isso que fiz, sem planejamento prévio, sobre o casal de Tico-tico que trago nesse post.
Enquanto observava no binóculo esse casal, que estava próximo a um Cambuí-vermelho (Myrcia selloi) em frutificação, fiz os seguintes apontamentos: "silenciosos (fazem o mais absoluto silêncio para se alimentar)"; "se alimentam no chão"; "cavam o solo com as patas e bico para desenterrar os alimentos". Em outra oportunidade, observei um indivíduo adulto cantando durante um bom tempo, e escrevi: "pode ficar vocalizando (cantando) sozinho empoleirado, por vários minutos, às vezes uma manhã inteira".
Reunidas essas informações, consultei então o site Wikiaves, assim como a "bíblia" da Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick, e pude então verificar várias semelhanças nas descrições. Tive o prazer de descobrir que há até um verbo bastante usado para o comportamento de revolver a terra com as unhas, em busca de alimento: "esgravatar" ou "esgaravatar". Mas também aprendi que a ameaça à população dos Tico-ticos se dá por cuidarem regularmente dos filhotes do Vira-bosta (Molothrus bonariensis), ave de hábitos reprodutivos parasitários, e não pela presença dos pardais, como popularmente se acredita.
Penso que a riqueza de informações como essas, que podem ser extraídas da atenta observação do comportamentos das aves, é um dos motivos que fazem com que essa atividade cresça a cada ano, no Brasil e no mundo. Afinal, as aves estão espalhadas pelos mais diversos biomas em todos os cantos do planeta, e podem ser observadas por qualquer pessoa minimamente interessada.
Retornando a Tiradentes, quem não as invejaria pela possibilidade de alçar voo, sem ter de pagar altos impostos à Coroa portuguesa?