É na primavera recém chegada que os sabiás iniciam o período de reprodução, quando entoam diferentes tipos de canto que variam conforme a espécie e a região do país. Fora da época de acasalamento param inteiramente de cantar, daí a beleza desse momento, que se renova ano a ano.
Como passam o dia todo cantando, inclusive na madrugada, fica mais fácil localizá-los para observar seu comportamento e fazer registros audiovisuais.
Nas últimas semanas estive no Jardim Botânico do Rio especialmente para admirá-los. As espécies residentes ali são o Sabiá-laranjeira (esse da foto que inicia a matéria e que foi flagrado em seu banho primaveril) e o Sabiá-barranco. Deste último fiz o registro do canto em vídeo, como podemos ver (e ouvir) logo abaixo.
O Jardim Botânico também é visitado, em alguns poucos meses do ano, por mais duas espécies, o Sabiá-una e o Sabiá-poca, mas não os avistei em minhas mais recentes caminhadas por lá.
Como é bom testemunhar a sinfonia proporcionada pelo canto das espécies em seu conjunto! E vejam que se diz que o canto dos sabiás no Rio de Janeiro é empobrecido, por conta da vida na cidade grande.
Oi amigos, tudo bem? Na última terça-feira (22 de setembro) fui ao Parque Natural Municipal Bosque da Barra, localizado no bairro da Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, para conhecer a avifauna do local.
Confesso que não nutria grandes expectativas de encontrar uma significativa biodiversidade por ali, talvez por não haver me informado o suficiente antes da visita. E que boas surpresas encontrei por lá!
O Parque conta com uma vegetação típica de restinga e mangue seco, o suficiente para atrair muitos Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius), que chegam mesmo a cruzar as alamedas, "rivalizando", quanto à abundância para a observação, com a Pista Claudio Coutinho. Consegui um registro bem bacana de um deles, alimentando-se "de ponta cabeça".
Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) alimentando-se "de ponta cabeça" (clique para ampliar)
Na mesma vegetação, consegui registrar o comportamento interessante de um Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris), que tem o hábito de ficar bem no chão, mas que nesse caso encontrava-se empoleirado em "contorcionismo" incomum para abocanhar o fruto.
Sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) em "contorcionismo" pouco usual para a espécie (clique para ampliar)
O Parque também apresenta um extenso gramado, onde se encontrava um casal de Quero-quero (Vanellus chilensis)e um filhote da espécie, alimentando-se possivelmente de pequenos artrópodes.
Quero-quero (Vanellus chilensis) (clique para ampliar)
Filho de Quero-quero (Vanellus chilensis) alimentando-se (clique para ampliar)
Ao todo, avistei ou ouvi pelo menos 18 espécies de aves (ou 19, se considerarmos um casal da Galinha-da-angola que sabe-se lá como foi parar no Parque), mas certamente o número é maior, já que não consegui identificar alguns cantos desconhecidos.
Como não localizei nenhuma lista pública no Taxeus, acabei fazendo uma, que pode ser acessada clicando aqui (para consulta a um estudo mais aprofundado da avifauna da Baixada de Jacarepaguá - que inclui o Bosque da Barra, além dos Parques Municipais de Marapendi, Chico Mendes e Prainha -, realizado por Francisco Mallet e outras autoridades da ornitologia brasileira, clique aqui).
Avistei, ainda, um "lifer" para mim: a Saracura-três-potes (Aramides cajaneus). Apenas para não passar em branco, segue o péssimo registro (desfocado e na sombra) que fiz da espécie.
Saracura-três-potes (Aramides cajaneus) (clique para ampliar)
Para finalizar, não tive como deixar de fotografar a fauna "não alada" do local. Despeço-me, abaixo, com os registros de uma Cotia (Dasyprocta sp.), um Sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) e de um Teiú (Tupinambis sp.). Este último cruzou bem a minha frente, e pude "capturá-lo" com todo o seu comprimento, que pode atingir até dois metros.
Cotia (Dasyprocta sp.) (clique para ampliar)
Sagui-de-tufos-brancos (Callithrix jacchus) (clique para ampliar)
A pista Claudio Coutinho, localizada no Morro da Urca, no Rio de Janeiro (RJ), leva esse nome em homenagem ao ex-treinador da Seleção Brasileira de Futebol e antigo formando da Escola de Educação Física do Exército, Claudio Pêcego de Moraes Coutinho.
A pista é também conhecida como "Estrada do Costão" ou "Caminho do Bem-te-vi", embora neste último caso seja mais apropriado chamar de "Caminho do Tie-sangue", já que essa ave espetacular de cor vermelho-sangue pode ser ali avistada em grande profusão.
O acesso à pista se dá pela Praia Vermelha, um dos muitos cartões-postais da Cidade Maravilhosa.
Morro da Urca e Pista Claudio Coutinho vistos da Praia Vermelha (clique para ampliar)
O dia estava bem claro, com a presença de pouquíssimas nuvens apenas no início da manhã, que foram logo dissipadas com a elevação do sol.
Cristo Redentor visto da Praia Vermelha: dia de poucas nuvens (clique para ampliar)
Ainda na Praia Vermelha, antes da entrada na pista Claudio Coutinho foram observadas várias Caturritas (Myiopsitta monachus) pousadas nos coqueiros junto à areia. Embora nativas das regiões subtropical e temperada da América do Sul, já há alguns anos as Caturritas parecem ter adotado a cidade para sua permanência e reprodução.
Caturrita pousada em coqueiro (clique para ampliar)
Conforme relatamos no artigo A sociável família dos Psitacídeos, as Caturritas são a única espécie de aves da família dos psitacídeos aptas à construção de ninhos, e hoje foram vistas várias delas trazendo em seu bico pequenos galhos secos para a nidificação. Elas também vocalizaram com bastante intensidade, para o deleite dos amantes das aves.
Caturrita vocalizando (clique para ampliar)
Já dentro da pista Claudio Coutinho a estrela principal não tardou a aparecer. O belíssimo Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius), ave tipicamente brasileira e símbolo da Mata Atlântica,logo abriu a passarinhada, alimentando-se do fruto da Aroeira (Schinus sp.). Ao final do passeio, pousou bem perto para o registro da fotógrafa da natureza Maria Isabel Hofmann, que gentilmente nos cedeu a imagem.
Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) consumindo o fruto da Aroeira (Schinus sp.) (clique para ampliar)
Tiê-sangue (Ramphocelus bresilius) Foto: Maria Isabel Hofmann
(clique para ampliar)
Tão coloridos quanto o Tiê-sangue, alguns casais de Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) também se fizeram presentes. O macho da foto, embora um pouco escondido entre os galhos, aproximou-se mais do grupo, facilitando o registro de sua bela coloração.
Gaturamo-verdadeiro (Euphonia violacea) (clique para ampliar)
Quem igualmente marcou presença foi a Asa-branca (Patagioenas picazuro),imortalizada nos versos de Luis Gonzaga e Humberto Teixeira, que chegou de mansinho pelo alto, voando sublime até pousar alguns minutos para a apreciar a paisagem, deixando à mostra a asa de coloração branca que justifica seu nome popular.
Asa-branca (Patagioenas picazuro) (clique para ampliar)
O Martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) foi outro que passou voando sobre o grupo, mas preferiu a sombra e a brisa do mar para descansar junto aos rochedos.
Martim-pescador-grande (Megaceryle torquata) (clique para ampliar)
Um acontecimento que causou verdadeira comoção nos observadores foi a presença bem próxima de um casal de Garrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris), vocalizando em alternância com grande beleza. Foi realmente um momento especial. O registro do casal coube ao fotógrafo da natureza Pedro Inácio de Paula, que gentilmente nos cedeu a imagem.
Casal de Guarrinchão-de-bico-grande (Cantorchilus longirostris) Foto: Pedro Inácio de Paula (clique para ampliar)
No final do percurso ainda foi possível observar, entre o Costão e a Ilha de Cotunduba, vários bandos de Atobás-pardos (Sula leucogaster) voando bem rente à água, normalmente em linha reta, como é característico da espécie, ficando seus dorsos bem camuflados quando contrastados com a água do mar. A imagem dos Atobás-pardos é do fotógrafo da natureza Pedro Inácio de Paula.
Ilha de Cotunduba vista da pista Claudio Coutinho (clique para ampliar)
Atobás-pardos (Sula leucogaster) Foto: Pedro Inácio de Paula (clique para ampliar)
Muitas outras aves foram identificadas ao longo do passeio, como sanhaçu-do-coqueiro, bem-te-vi, bentevizinho-de-penacho-vermelho, corruíra, canário-da-terra-verdadeiro, cambacica, beija-flor-de-fronte-violeta, fragata, urubu e outras que fizeram do evento uma passarinhada empolgante que merece ser repetida em outras oportunidades. Por fim, o registro do Pica-pau-anão-barrado (Picumnus cirratus) feito pela fotógrafa da natureza Maria Isabel Hofmann.
Pica-pau-anão-barrado (Picumnus cirratus) Foto: Maria Isabel Hofmann
(clique para ampliar)
E você, já conhece a avifauna da Pista Claudio Coutinho? Ainda não conhece, mas ficou curioso? Deixe aqui seu comentário, divulgue o blog e ajude a semear a consciência ambiental!