Tom Jobim e os pássaros


Tom Jobim - década de 80
(foto: Julieta Sobral - Instituto Antônio Carlos Jobim - www.jobim.org)

2 MIN, DE LEITURA

O saudoso compositor e maestro Tom Jobim nunca escondeu a admiração pelos pássaros e a influência de seu canto na produção musical. Escreveu, certa vez, que "música é o canto do passarinho melhorado, computadorizado, arranjado".

O Instituto Antônio Carlos Jobim, localizado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, mantém uma exposição permanente do acervo do compositor, onde é possível ver, dentre outras preciosidades, objetos utilizados por observadores de aves, como um guia de identificação das espécies da avifauna mundial.

Na canção "Borzeguim", que integra o álbum "Passarim" de 1987, Jobim nos remete a uma vida integrada à natureza, ao mesmo tempo em que alerta para a questão da sustentabilidade ambiental, como nos trechos: "deixa o mato crescer em paz", "escuta o vento cantando no arvoredo" e "gavião grande é bicho sem fronteira..."

Por esses motivos, eu tinha em mente escrever algumas linhas sobre o potencial de seu trabalho artístico para a conscientização ambiental. Em buscas na internet sobre sua vida, contudo, deparei-me com um texto definitivo sobre Tom Jobim e sua obra, escrito por ninguém menos que o poeta Carlos Drummond de Andrade, por ocasião da celebração dos cinquenta anos do compositor, completados no dia 25 de janeiro de 1977.

O texto de Drummond é intitulado "Som sobre Tom", e inicia-se assim*:

"Abro a janela, e em minha paróquia não visitada por sabiás, um sabiá está cantando. O ouvido não se enganou, e é fácil de explicar. Nesta manhã, um sabiá múltiplo e comemorativo gorjeia em cada árvore de cada bairro do Rio, da Tijuca ao Leblon, pela chegada dos cinquenta anos do sabiá-mor, vulgo Tom Jobim.

O pássaro desenvolve um canto geral, em nome das aves amadas por Tom, inclusive o matita-perê, que não nasceu lá muito melodioso, e o jereba, ou urubu de cabeça vermelha, do qual obviamente não se exigem primores vocais. E sua ária festiva é justa homenagem da natureza ao compositor que soube captar para nós, entre canções de amor sofrido ou exultante, a palpitação, o lirismo surdo, o secreto recado das águas de março, das madeiras e lejes que compõem o mais antigo cenário de vida. Cenário que vamos destruindo metodicamente, em vez de preservá-lo e restaurá-lo como opção para o triste viver urbano a que nos condenamos por inclinação suicida...".

Ao ler essas primeiras palavras de Drummond, logo concluí que deveria encerrar minhas pesquisas por ali.


Jobim e Drummond no lançamento do LP Matita Perê (08/05/1973)
(foto: autor desconhecido - Instituto Antônio Carlos Jobim - www.jobim.org)
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*A íntegra do texto de Drummond sobre Jobim pode ser acessada aqui.

Por Cristiano Pedras

(publicado em 07/05/2018)



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