Coruja-buraqueira em Ipanema


Coruja-buraqueira (Athene cunicularia)
(fotografada na Praia de Ipanema em 30/06/2018)
(clique na foto para ampliar)

3 MIN, DE LEITURA

O que ainda faz o carioca permanecer em sua cidade natal apesar de tanta violência noticiada nos meios de comunicação? Por que não procura uma vida nova em outro lugar onde possa viver com mais tranquilidade? Essas são perguntas que o morador do Rio de Janeiro certamente já se fez em algum momento de sua vida.

Um dos motivos mais lembrados para explicar essa irracional resistência do carioca à mudança são as belezas naturais da Cidade Maravilhosa, que justificariam de alguma forma a permanência aqui, apesar de todos os pesares.

Como carioca apaixonado por aves, acrescentaria também mais um pretexto a esse imobilismo. O que faz o carioca ficar na cidade são as inúmeras possibilidades proporcionadas por nossa avifauna urbana, de que é exemplo recente essa simpática coruja de hábitos diurnos, avistada por observadores de aves na orla de Ipanema.

Devo o registro fotográfico à generosidade de meu amigo de passarinhada José Eduardo Cruz, que informou a um grupo de aficionados por aves a localização exata da coruja, por ele avistada há cerca de uma semana, na Praia de Ipanema, às 7h30. Fotografei a coruja nesse mesmo horário, uma semana depois.

Essa ave é popularmente conhecida pelo nome Coruja-buraqueira, por cavar buracos no solo para nidificar e refugiar-se, o que justifica também seu nome científico, Athene cunicularia (cunicularia a significar "mineiro" ou "que cava túnel"). A referência à deusa da mitologia grega Atena (Athene) revela a associação popular da coruja com a sabedoria, simbolismo reforçado pela visão binocular privilegiada, ótima audição e voo silencioso dessa ave.

Ela tem por hábito peculiar pousar sobre uma perna só em locais expostos, no caso em questão sobre uma estaca de madeira. Também costuma movimentar seguidamente a cabeça para os lados, num movimento que pode alcançar 270 graus. Pode-se ter alguma ideia dessas características no vídeo abaixo, feito pouco antes da coruja voar para o alto de uma palmeira, possivelmente em razão de minha aproximação.




Para conseguir esses registros tive de me cercar de alguns cuidados esperados de um habitante da cidade grande, como deixar apetrechos pessoais em casa antes de sair e levar a câmera camuflada em uma mochila pendurada nas costas. Apesar desse constrangimento, ao final da experiência tive apenas uma certeza: enquanto houver aves a serem apreciadas na cidade, a violência urbana não há de vencer!


Pílula Ecológica

A Coruja-buraqueira é uma ave de rapina e a espécie quase não tem predadores naturais. Seu maior inimigo é o homem. O trânsito de carros sobre a vegetação da praia é o principal fator de destruição dessa coruja, pois ao passarem sobre a boca dos ninhos os veículos soterram o túnel, matando mãe e filhotes asfixiados debaixo da camada de areia em que se encontram (fonte: site Wikiaves).

Há quase uma década as marcas Osklen e Havaianas vem financiando o replantio de vegetação de restinga nas dunas de Ipanema, por meio do projeto #SOSRestinga, desenvolvido em parceria público-privada desde 2009 pelo Instituto-E.

Essa louvável iniciativa tem benefícios ecológicos evidentes. O aparecimento da coruja pode ser explicado em parte por essa intervenção, já que o trabalho realizado impede o trânsito de pessoas e veículos sobre determinadas faixas de areia, preservando o habitat natural para a coruja sobreviver e reproduzir. Apesar disso, lamentavelmente, os canteiros vem sendo destruídos por "blocos de carnaval", como recentemente noticiado pelo portal G1 (acesse a matéria clicando aqui).

Caso testemunhe algum ilícito contra a fauna e a flora, acione a Ouvidoria do Ibama, clicando aqui.

Por Cristiano Pedras

(publicado em 03/07/2018)



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