Papa Francisco e sua encíclica sobre o meio ambiente


"Pomba da Paz" (Columba livia)

A humanidade vive hoje uma crise ética e ambiental sem precedentes na história, apesar dos inegáveis avanços científicos e tecnológicos conquistados com o uso da mente racional.

Embora nos orgulhemos do aparente domínio sobre a natureza, ainda não desenvolvemos suficientemente a capacidade da mútua compreensão, e os acordos políticos necessários ao controle das guerras e das mudanças climáticas, apenas para citar dois exemplos, parecem longe de um desfecho exitoso.

Devemos isso, em parte, à perda de uma "identificação emocional com a natureza", como já diagnosticava o psiquiatra suíço Carl G. Jung em sua magnífica obra "O homem e seus símbolos", publicada em 1964: "o homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua "identificação emocional inconsciente" com os fenômenos naturais. O trovão já não é a voz de um deus irado, nem o raio o seu projétil vingador. Nenhum rio abriga mais um espírito, nenhuma árvore é o princípio de vida do homem, serpente alguma encarna a sabedoria e nenhuma caverna é habitada por demônios. Pedras, plantas e animais já não têm vozes para falar ao homem, e ele não se dirige mais a eles na presunção de que possam entendê-lo. Acabou-se o seu contato com a natureza, e com ele foi-se também a profunda energia emocional que esta conexão simbólica alimentava" (pág. 120).

Coube ao Papa Francisco, no último dia 24 de maio de 2015, a louvável tentativa de resgatar essa importante conexão simbólica, com o lançamento de sua Carta Encíclica 'Laudato Si', a primeira do Vaticano a abordar a temática ambiental, nos seus mais variados aspectos.

A expressão 'Laudato Si' (Louvado Sejas. em latim) é referência direta a um cântico de Francisco de Assis, santo patrono da ecologia que emprestou o nome ao Papa, e que, segundo este, "sempre que olhava o sol, a lua ou os minúsculos animais (cantava), envolvendo no seu louvor todas as outras criaturas...chegando mesmo a pregar às flores, como se gozassem do dom da razão" (págs. 10/11).

Não pretendo aqui abordar as inúmeras sutilezas da Encíclica Papal, mas apenas ressaltar, nas palavras do Papa Francisco, que "esta convicção (de São Francisco de Assis) não pode ser desvalorizada como romantismo irracional, pois influi nas opções que determinam o nosso comportamento". E  também salientar, com o Papa, que "se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude" (pág. 11).

A Encíclica Papal é extensa, conta com 192 páginas, enfrenta corajosamente a questão do consumo inconsequente e do uso desenfreado dos recursos naturais, propondo uma ecologia integral que contemple a preservação ambiental e o cuidado com o ser humano. Não é o único documento autorizado a tratar desses temas, mas por unir dados científicos a uma abordagem espiritual da vida tem o potencial de despertar muitas pessoas para a necessária revisão de valores da atual sociedade globalizada.

Como diria Carl G. Jung, na obra citada no início desse post, "o papel dos símbolos religiosos é dar significação à vida do homem...é a consciência de que a vida tem uma significação mais ampla que eleva o homem além do simples mecanismo de ganhar e gastar" (pág. 111).

Caso o leitor não tenha tempo ou não se sinta motivado a aprofundar-se na Encíclica Papal, mas tenha gostado dessa mensagem, pode fazer bom uso da tecnologia e ser mais um agente de difusão da consciência ambiental junto a parentes e pessoas mais próximas, compartilhando este artigo por e-mail e nas redes sociais (basta utilizar um dos ícones no final deste artigo).

Quem sabe assim, "de grão em grão", o alcance da encíclica papal seja ampliado, e possa contribuir, efetivamente, para a construção de um planeta mais sustentável e mais pacífico, tarefa de cada um de nós.



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