Sobre o filme "SONHOS" (1990), de Akira Kurosawa


O consagrado diretor de cinema, Akira Kurosawa

Crise humanitária de refugiados do Oriente Médio, atentados terroristas na Europa, testes nucleares na Coreia do Norte, ameaça de pandemia do vírus Zika. O noticiário tem revelado uma realidade dolorosa, reflexo de como estamos construindo nossas relações com os semelhantes e com o meio ambiente.

Com tantas catástrofes anunciadas, só mesmo o universo onírico de um dos grandes gênios do cinema para nos trazer a pausa necessária à reflexão, renovando a esperança em dias melhores para a humanidade.

Na última década do século XX, o venerado cineasta japonês Akira Kurosawa (1910-1998) rodou o filme Sonhos (Yume, 1990), obra-prima cinematográfica inspirada em sonhos que experimentou ao longo da vida, e onde eternizou alguns ideais que bem poderiam se tornar realidade, não fosse a dificuldade do ser humano em colocá-los em prática.

No sonho que encerra o filme, O vilarejo dos moinhos, vemos concretizado o desejável e necessário retorno a um modo de vida mais integrado ao meio ambiente e à comunidade.

No mundo competitivo de hoje, em que as pessoas se aglutinam em grandes metrópoles e onde o consumo desenfreado parece ser a única forma de contentamento, o sonho de Kurosawa nos oferece outra maneira de estar no mundo, ecologicamente mais equilibrada e feliz.

Em um dos diálogos mais brilhantes do filme, um viajante indaga um ancião sobre a ausência de eletricidade no pequeno vilarejo, recebendo como resposta outra pergunta que desafia nosso modo habitual de pensar: Por que a noite deveria ser clara como o dia? E responde o ancião que não gostaria de não conseguir ver as estrelas à noite.

O sábio homem continua em seu ensinamento, dizendo que hoje em dia as pessoas se esquecem de que elas são só uma parte da natureza, da qual nossa vida depende. Acham, assim, que sempre podem criar algo melhor, sobretudo os estudiosos, que se julgam inteligentes, mas a maioria não entende o coração da natureza, pois só criam coisas que acabam tornando as pessoas infelizes. Grande parte das pessoas,  por sua vez, se orgulha dessas invenções, vendo-as como milagres, quando, na verdade, estão perdendo a natureza, não percebendo que irão morrer.

De fato, como ressalta o personagem, as coisas mais importantes para os seres humanos são ar limpo e água limpa, e as árvores e plantas nos dão isso, porém, tudo está sendo poluído para sempre: "ar sujo, água suja, sujando o coração dos homens", sugere o protagonista.

Não é preciso tanto esforço para concordar com o ancião. Afinal, a que preço conquistamos toda tecnologia e conforto a que estamos habituados? O que estamos fazendo com nossos semelhantes e com o meio ambiente em nome do "progresso tecnológico"?

Outro gênio entre os homens, Albert Einstein, teria dito certa vez, com notável precisão, que a palavra progresso não terá qualquer sentido enquanto houver crianças infelizes. Contudo, com nosso atual comportamento, qual legado estamos deixando para as inocentes gerações futuras?

A película nos remete, ainda, a outras reflexões importantes sobre nascimento, morte e vida feliz. Ao final do filme, não é difícil se emocionar e desejar por ao menos um instante que a realidade se aproxime daquela retratada no sonho do saudoso cineasta japonês, ainda que para isso tenhamos de abrir mão de alguns dos "milagres tecnológicos" de nosso tempo.



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