Manoel de Barros, o poeta dos passarinhos


Ninho de João-de-barro (Furnarius rufus)
(Lagoa Rodrigo de Freitas - RJ)

Não sou grande conhecedor de literatura, mas dos autores que já li nunca vi nada que se assemelhe à poesia de Manoel de Barros (1916-2014). Sei que chamá-lo "poeta dos passarinhos" é um reducionismo inadequado de minha parte, já que vários de seus poemas tratam da natureza de forma abrangente. Mas o fato é que não resisti a puxar a brasa para a observação de aves, um de meus passatempos preferidos.

A simples leitura dos títulos revela a riqueza de seu legado literário: "Compêndio para uso dos pássaros" [1960], "Gramática expositiva do chão" [1966], "Arranjos para assobio" [1980], "Concerto a céu aberto para solos de aves" [1991], "Tratado geral das grandezas do ínfimo" [2001], dentre tantos outros, traduzem a paixão inconteste do poeta pelo meio ambiente.

Nascido e criado no bioma do Pantanal, Manoel de Barros fala sobre pássaros, sapos, pedras e assim por diante, fazendo uso especialmente da sinestesia e da prosopopeia. Seus versos são carregados de consciência ambiental e a maneira como trata sua relação com a natureza tem o potencial de inspirar e emocionar.

No uso de sua licença poética, chega a desafiar a ciência, como nesse trecho do "Livro sobre nada" [1996]: "a ciência pode classificar e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos". Com isso, nos transmite o encantamento que é possível extrair das coisas da natureza, sem que se possa muitas vezes traduzi-lo em uma linguagem lógica, racional.

Sua poesia, para ser bem compreendida, precisa ser internalizada em doses homeopáticas. É isso que tenho feito nos últimos meses. Os trechos que mais aprecio tenho destacado no Twitter do Aves & Árvores.

Da próxima vez que sair para "passarinhar", além do guia de campo, pretendo levar alguns poemas de Manoel de Barros para ler entre as árvores. Deixo o convite ao leitor para que faça o mesmo, na certeza de que estará na companhia de alguém que, a julgar por sua produção literária, muito amou e respeitou o meio ambiente, legando-nos ainda a lição de que ecologia profunda e espiritualidade são duas faces da mesma moeda.

"Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos"
(Manoel de Barros - 1916-2014)


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4 comentários:

  1. Linda foto! Lindas palavras usadas para definir este poeta tão especialmente simples e sensível, que tanto nos encantou! Parabéns filho!

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    1. Obrigado, mãe. O mérito é todo do poeta Manoel de Barros, que nos deixou esse belo legado.

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  2. Amei seu artigo.
    Vou procurar os poemas de Manoel de Barros.

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    1. Olá, Mayra. Agradeço sua visita e fico feliz que tenha gostado do artigo. Manoel de Barros foi realmente um grande poeta brasileiro. Certamente você terá muitos momentos de alegria ao ler seus poemas. Um abraço!

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