Um Ipê-roxo no caminho


Ipê-roxo (Tabebuia heptaphylla)

O transporte de ônibus na cidade do Rio de Janeiro ainda está longe do desejável: motoristas dirigem em alta velocidade, falam ao celular, param fora do ponto e muitos ônibus trafegam em péssimo estado de conservação e sem ar condicionado.

Ainda assim, como a distância de minha residência ao trabalho não é muito grande, procuro fazer a minha parte e somente utilizo veículo automotor nos finais de semana, salvo raras exceções. 

Sabia que um dia essa opção deveria trazer algum tipo de recompensa, afinal, não é fácil aos usuários - e muito menos ao motorista do coletivo - enfrentar diariamente engarrafamentos, poluição sonora etc., numa metrópole que vem se tornando cada dia mais caótica, como parece ser o trágico destino das grandes cidades do planeta.

Mas os cariocas ainda podem se dar ao luxo de conviver com alguns tesouros, embora para muitos passem quase sempre despercebidos: nas últimas semanas, com a chegada do inverno, começaram a florir, no Aterro do Flamengo, magnífico legado paisagístico de Roberto Burle Marx, os primeiros Ipês-roxos (Tabebuia heptaphylla).

Esse ipê da foto já chamava minha atenção há alguns dias. O ônibus passava rápido, mas era impossível não admirar a magnífica floração. É como se a árvore me dissesse: "Cristiano, quando você dará um pulinho aqui"? Até que, na última sexta-feira, ouvindo o seu chamado (quem disse que as árvores não se comunicam?) resolvi ir até o ipê, após saltar num ponto próximo ao aeroporto Santos Dumont, onde ele se encontra.

Aqui, devo registrar que um dos poucos inconvenientes do Parque do Flamengo é que algumas árvores, geralmente as mais belas e floridas, ficam isoladas do pedestre, normalmente no canteiro central que separa as pistas, onde se tem acesso livre apenas aos domingos. Esse era o caso do ipê em questão. Após dar uma longa volta, atravessei o asfalto até ficar bem próximo dele. A verdade é que não bastava admirá-lo de longe!

Mas que emoção ao contemplar o ipê bem de perto! Amigos, é muita vida que se esconde no meio daquelas flores! Havia vários besouros cumprindo o papel de polinizadores, enquanto minha função ali era de mero espectador de um verdadeiro espetáculo que a natureza nos oferece todos os anos!

A visita durou pouco, pois um sentimento de culpa tipicamente humano começou a tomar o lugar da sensação de deslumbramento. Afinal, tenho uma família para cuidar e o que eu estava ali fazendo entre as pistas? Por um instante desejei que aquele momento não terminasse. Foi quando então percebi, com os olhos marejados, que a beleza da vida pode estar justamente aí, na efemeridade dos acontecimentos.

O fato é que nesse dia fui tomado por uma sensação profunda de integração com a natureza. Que bom seria para o meio ambiente se todos os condutores que ali passavam com seus veículos turbinados pudessem sentir o mesmo...

Dica de leitura

Indico fortemente a leitura da interessantíssima pesquisa Árvores e População: As relações que se estabelecem no contexto da cidade, de autoria de Ivete Mello Calil Farah, doutora em Urbanismo pela UFRJ e com experiência na área de Paisagismo, com ênfase em Arborização Urbana. Ela ressalta que "as árvores trazem benefícios psicológicos à população da cidade, preenchendo em parte uma lacuna advinda da necessidade de seus habitantes de um contato com a natureza".



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8 comentários:

  1. Linda a sua emoção ao comtemplar esta linda árvore! Só não é maio que a minha em tê-lo como meu filho! Te amo!

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  2. Lindo, Cris! Adorei o texto e a foto! Tb sou fã dos ipês de nossa cidade!

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    1. Obrigado Lu! Diante de tanta beleza natural da nossa cidade é mesmo impossível ficar indiferente. Grande abraço!

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  3. Amor, você descobriu sua missão na Terra. Estou emocionada com sua iniciativa e com mais esse belo texto. Obrigada pela linda foto!

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    1. Assim é você que vai me emocionar. Minha missão na Terra é cultivar o amor às pessoas e à natureza ao lado de você e de nossa família. Te amo muito, obrigado por comentar.

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  4. Linda árvore e lindo texto. Obrigada por, com sua empolgação pela natureza, nos ajudar a reencontrar (e admirar) o pouco que resta dela nessa cidade tão caótica. Grande abraço!

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    1. Obrigado Tatiane, pela generosidade de suas palavras. Fico muito feliz de ver que as flores e o texto tocaram você. A ideia do blog é essa mesma, espalhar o amor à natureza e a consciência ambiental a todas as pessoas, principalmente as da cidade grande, tão afastada desse contato que inspira e reanima. Forte abraço!

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